Revista Diário - 29ª Edição

DiegoBonilla Procurador do estado E nquanto quase todos os analistas políticos do país op- taram por avaliar o resultado da eleição de 2018 sob a dicotomia entre a 'direita' e a 'esquerda', gostaria de convidar o amigo leitor a refletir comigo despido de qualquer paixão. Sim, mais do que criticar os candidatos à Presidência da Re- pública por qualquer razão, opto por analisar os porquês do fra- casso pelista e a surpreendente vitória de um deputado do bai- xíssimo clero de nosso parlamento. Para compreender o confuso processo eleitoral brasileiro, precisamos recordar o momento que iniciou a vitória do capitão Bolsonaro: os protestos populares de 2013. Naquela ocasião, um grupo de estudantes paulistas foi às ruas hostilizar veemente- mente o aumento das tarifas do transporte público em vinte cen- tavos. O protesto cresceu mais do que se imaginava, a população aderiu ao pleito e acrescentou outras tantas reivindicações, es- pecialmente na saúde, na segurança e no combate à corrupção. O movimento de 2013 era apartidário, não possuía lideran- ças e sua pauta era difusa. Em poucos dias a insatisfação reper- cutiu em outras grandes cidades e invadiu o Distrito Federal, passando a alardear a imagem de alguns jovens universitários de pensamento liberal. Infelizmente, em dado momento o levante recebeu a parti- cipação de um grupo que se intitulava "blackbloc", composto por jovens de classe média, aparentemente revoltados contra lan- chonetes, concessionárias e agências bancárias. A ação de tal grupo identificado com uma confusa e impraticável simbiose de socialismo e anarquismo, culminou com uma onda de violência e depredação, esvaziando o movimento de estudantes e traba- lhadores, colocando um ponto final nos protestos. Daquelas manifestações populares duas grandes dissidências foram formadas: jovens liberais aliados aos trabalhadores e em- presários de um lado, e jovens socialistas, unidos aos movimen- tos sindicais/sociais e ao MST em outra banda. Naquela ocasião tais frações refletiam apenas o debate e uma nova organização política, sem um enfrentamento direto nas urnas. No ano seguinte aos protestos, as eleições de 2014 seguiram um curso previsível, com a reeleição da confusa presidente Dil- ma, desta feita com pequena margem de vantagem sobre o can- didato Aécio Neves. Ali grande parte da população desconhecia os ilícitos de ambos os candidatos mais votados no pleito, pou- cos já tinham a compreensão dos reflexos da denominada "con- tabilidade criativa" da líder pelista, prática ulteriormente reco- nhecida como "pedalada fiscal". Também eram desconhecidas as amizades do ex governador mineiro com empresários afetos a favores não republicanos. Um ano depois o país estava mergulhado na pior crise eco- nômica de sua História, fato que deflagrou novo movimento de insatisfação popular. Contudo, durante os protestos que pediram o impeachment, as lideranças populares eram identificáveis e a pauta muito evidente: nascia o antipetismo. Durante todo o ciclo de crise e ebulição social uma ausência foi facilmente detectada: a candidata Marina Silva, terceira co- locada na eleição de 2014, restou providencialmente desapare- cida, não sublinhando qualquer posicionamento formal. O re- sultado a acreana colheria em 2018, obtendo uma votação des- prezível e sendo derrotada, inclusive, pelo desconhecido e fol- clórico Cabo Daciolo. A partir do impeachment boa parte da população já estava decidida a ceifar do poder todo o conjunto ideológico pelista, imputando ao partido todo o sofrimento experimentado no país. Por sua vez, um grupo numeroso e coeso seguiu fiel ao ex pre- sidente Lula, naquela ocasião já afetado por robustas denúncias de corrupção Em verdade, a miséria brasileira não foi inventada por Lula, e muito menos a corrupção tupiniquim nasceu no governo pe- lista. Entretanto, em um processo de profundo sofrimento eco- nômico, com índices galopantes de desemprego e violência, as pechas negativas recaíram nos ombros de todos os partidos que Procurador do Estado earticulista daRevista Diário Revista DIÁRIO - Edição29- 36

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